Marcado pela presença
histórica do “Jongo da Serrinha” e posteriormente
pelas tradicionais escolas de samba “Portela, Império
Serrano e Tradição”, o bairro de Madureira,
ao longo de sua existência, sempre demonstrou em sua essência
a forte predominância da cultura negra. E uma prova real deste
relacionamento amoroso com o povo afro-carioca foi o nascimento
de uma de suas filhas mais novas: a “black music”!
11 de maio de 1990. Um grupo de amigos, verdadeiros entusiastas
do samba, conhecidos como “Leno, Pedro, Edinho e Xandoca”,
se organizam e fundam o bloco carnavalesco “Pagodão
de Madureira”, tendo como local de suas manifestações
a parte inferior do “Viaduto Negrão de Lima”...
Na semana seguinte o grupo é visitado pelo empresário
local do entretenimento black (hoje falecido), “Cesar Ataíde”.
A história da black music em Madureira começa aqui...
“No final de 1992, eu fui convidado pelo
Cesar Atáide, que hoje não está com Deus,
e ele queria fazer um projeto onde envolvesse toda a massa do
subúrbio. Então, nós começamos a pensar
aonde fazer esse trabalho musical. Ele propôs primeiramente
na Praça Patriarca. Não conseguimos. Depois, na
marquise da Loja Caricia. Não conseguimos. E, com a influência
de um amigo dele (político), ele conseguiu a autorização
do Viaduto de Madureira, na Praça das Mães, pra
realizar o Projeto Charme na Rua... Ele perguntou pra mim qual
seria a melhor data pra estrear o baile e eu falei: ‘vamos
deixar passar o carnaval – e isso em 1993 – e vamos
começar no primeiro sábado de carnaval’! No
dia 6 de março, quando estávamos prontos para estrear,
o sobrinho dele adoeceu e então transferimos pro dia 12,
data oficial do nascimento do Charme na Rua no viaduto”,
relembra com orgulho o “DJ Marki New Charm”, que na
época, além de ser um dos fundadores do baile, dividia
os toca-discos com os djs “Lopy, Michel, Cali e A”.
“No início, nós fomos apoiados pelo equipamento
do DJ Marlboro, onde nós íamos buscar em Raiz da
Serra, conclui emocionado. “Tudo começou de uma brincadeira:
nós éramos camelôs em Madureira e montamos
Shopping Rua, ou seja, comprávamos os modelos das roupas
dos playboys e dávamos nosso jeito vendendo as cópias
do artigo original bem abaixo do preço pro povão
que não tinha condições de se vestir bem.
Com aquele lucro, tinha o nosso laser que era no Vera Cruz (baile
do DJ Corello no bairro de Abolição). Mas era a
lei da selva: na nossa profissão, quem chega tarde perde
o melhor ponto, e como nós chegávamos tarde do baile,
a gente ficava prejudicado. Então, o Cesar Negão
(que Deus o tenha!) falou pra mim: ‘pô Jones, nós
temos que fazer o nosso baile...’! Mas fazer aonde? A Gente
é camelô! ‘Que nada, vamos fazer debaixo do
Viaduto porque ali ninguém vai reclamar nada’! Foi
uma idéia meio maluca; na época eu tinha um trailer,
que a minha ex-mulher administrava, e como lá era aberto,
a gente resolveu cobrir os custos do baile com a cerveja que fosse
vendida nele... E assim, eu, Cesar Negão, Mico e mais uma
outra rapaziada fizemos o Chame na Rua, que hoje, Rio Charme completa
seus 16 anos de vida atendendo outras gerações mais
novas com o melhor da black music, conta “MF Jones”,
um dos anfitriões do baile.
Com o falecimento de Cesar, “Celso Ataíde”,
num ato de preservação a construção
da identidade da cultura black local e em memória ao seu
irmão, decide manter o projeto vivo sob as estruturas do
viaduto...
O movimento hip-hop carioca estava no auge: por não concordarem
com a violência crescente nos bailes funk; encontrarem uma
certa similaridade através do extinto ritmo do “new
jack swing” – muito divulgado nos bailes charme da
época – e não possuírem dinheiro para
freqüentar os bailes black todos os fins de semana, optaram
por freqüentar o baile do Charme na Rua, que, gradativamente
percebeu a sua presença. “O Cesar achou a necessidade
de se colocar muito mais hip-hop no baile... Aí, eu procurei
conhecer algum dj de hip-hop. E numa festa, no Morro do Alemão,
eu conheci o DJ A! Eu falei logo: esse é o cara que eu
tenho que levar pro nosso baile! E ele foi o segundo dj do Viaduto
de Madureira”!, declara o DJ Marki, que na época
era um dos poucos djs de r&b sensíveis à importância
do hip-hop carioca. “Pra mim é um prazer muito grande.
Há 15 anos atrás, eu era o que abria o baile e hoje,
eu sou um dos principais... Aqui é a minha casa, independente
de outros bailes que eu já tenha feito. Aqui sempre foi
o meu quartel e o tempo de existência do Viaduto, é
o Tempo do DJ A como artista! Fazer parte dessa história
me orgulha muito”, ressalta “DJ A”, considerado
uma das figuras centrais do baile juntamente com os djs “Michel,
Lopy e Black Jay”.
Variando positivamente sobre o mesmo tema...
Entendendo a importância do baile do viaduto
como um veículo de concentração popular,
responsável pela difusão da cultura negra no Estado
do Rio de Janeiro, o Governo do Estado, decide reconhecê-lo,
junto a organização remanescente do espaço,
como um instrumento essencial à cultura do bairro, assim
como as escolas de samba e o jongo: deste modo, em 1995, o “Projeto
Charme na Rua” é rebatizado de “Projeto Rio
Charme”, e tem suas dependências reformadas visando
o controle e a segurança do público, apresentando
inclusive um preço simbólico para sua preservação...
O berço da boemia declara o seu amor pela
temporã do bairro do jongo e do samba...
Aos 15 anos de vida, o “Projeto Rio Charme”,
dá seu primeiro passo para maturidade, e como mesmo citou
Jones, “Tudo começou de uma brincadeira (...)”.
“É como se fosse uma adolescente que tá se
descobrindo pro mundo: imagina uma menina completando seus 15
anos... Ela percebe o seu potencial e sai de uma fase para outra.
É por esta razão que nós resolvemos, não
apenas comemorar com um baile, mas premiar àqueles que
fazem parte do dia a dia dele”, descreve o promoter “Marcos
Vinícius” a respeito de uma premiação
que será realizada para simbolizar a importância
de alguns nomes responsáveis pela biodiversidade cultural
do baile: o “Prêmio Haley”, baseado na figura
antológica do “Sr. Haley”, um de seus freqüentadores
mais antigos e assíduos. “Geralmente, os prêmios
que são entregues por aí à fora, seus títulos
são baseados em grandes personalidades da história.
Na história do viaduto, nós temos um senhor, amante
da black music, que chama-se Haley. Ao contrário do que
se pensa, ele é um homem de pele branca, residente da Ilha
do Governador, de 50 anos de idade, que chega no baile às
22 horas e só sai às 05h30 ao término da
programação, isso fielmente há 15 anos! Através
do nome dele nós resolvemos homenagear todas as pessoas
que fazem parte da história do baile. Não é
o Grammy, que tem a sua atenção voltada unicamente
para a música, mas é uma premiação
com a visão das pessoas que contribuíram para o
engrandecimento da black music em todo o estado e não apenas
no viaduto durante esses 15 anos”, explica Marcos.
E são estes os contemplados com o “Prêmio
Haley”:
• Jeffinho- dançarino da Cia. de
dança de Débora Cocker, freqüentador assíduo
e dançarino do baile desde sua inauguração.
• Daddy Kall- cantor black e dj do programa Adrenalina Black
(Transamerica FM). Freqüentador do baile desde os tempos
do grupo You Can Dance (do qual era integrante).
• Rose- freqüentadora assídua do baile desde
o início. Engravidou e mesmo assim não abandonou
sua prazerosa rotina dos fins de semana. Hoje, com sua filha atingindo
a maioridade, ambas desfrutam do mesmo espaço.
• TR- ex-coordenador da extinta ATCON (Assoc. “Hip-hop”
Atitude Consciente). Constumava reunir-se com os membros da entidade
nos finais de semana no baile divulgando desta forma toda a cena
do hip-hop local.
• Júlio- fã do baile desde o início,
resolveu criar a família virtual do Rio Charme, mantendo
um orkut na internet.
• DJ Corello- um dos precursores do r&b e popularizador
da expressão “charme” nos bailes black cariocas
nos anos 80 e 90.
• Fernandinho DJ- ao lado do DJ Corello, se tornou divulgador
do charme em todo o estado. Foi inclusive o primeiro dj a levar
o rítmo para uma das mais populares rádios AM dos
anos 80: a Mundial.
• Grupo DR Intro (ex-Irmãos de Sangue)- grupo de
dançarinos que animava a pista do viaduto desde o início.
• Jéssica Sodré- hoje atriz global, nunca
deixou de comparecer ao baile durante os fins de semana.
Todavia, ao contrário do que previsivelmente
se imaginaria, a festa que caracteriza os 15 de Rio Charme não
será realizada nas dependências do Viaduto Negrão
de Lima, mas no Circo Voador (Lapa)... Isto mesmo, o Palco Voador
se tornará o altar da confraternização dos
amantes da black music! Mas porque o Circo e não o local
de origem...? “Se você tivesse que fazer a festa de
15 anos da sua filha, você faria em casa? Primeiro, nós
fomos convidados pelo Circo Voador. Isso pra nós soou como
um prestígio! Nós impomos pra eles nossas regras
quanto ao fazer este evento lá. Isto não quer dizer
que nós não trabalhamos o nosso espaço e
não fazemos os eventos devidos nele... Nosso baile é
cotidiano a um evento que segue uma certa rotina todos os sábados.
Se fossemos fazer uma festa pra homenagear nosso público,
teríamos que presenteá-los com uma festa atípica...
Por isso o Circo Voador”!, define Marcos Vinícius
muito otimista com a parceria firmada entre os dois espaços.
Portanto, se você ainda não teve
a oportunidade de usufruir do espaço considerado a Meca
da black music carioca, esta é uma excelente ocasião
para entender porque à cada dia um número considerável
de gregos, troianos, romanos e africanos lotam o baile black mais
badalado do Rio..
Te espero lá!
TR.
Saiba mais:
Quarta - 25 de Maio, 22h
Baile do Viaduto de Madureira
Circo Voador- Rua dos Arcos, S/N - Lapa (21) 2533-0354
Entrega do Prêmio Haley
Ingressos- R$12 (inteiro) e R$6 (estudantes)
www.circovoador.com.br
Projeto Rio Charme- Todos os sábados, à
partir das 22h
Viaduto Negrão de Lima (Madureira)
A cargo dos djs “A”, Lopy, Michel e Black Jay