O Portal de Campo Grande lança mais uma super coluna, desta vez sobre a Cultura do Hip Hop no Brasil.
Esta coluna está sendo escrita pelo DJ TR

Saiba mais sobre o DJ TR:

- Militante do movimento hip-hop há 14 anos
- Coordenador da ATCON (Associação Atitude Consciente)
- Membro da Zulu Nation Brasil
- Palestrante, escritor e colunista
O terrorista das rimas ofensivas contra-ataca o sistema americano com “Sonic Jihad”...
CD Soul of Brasil
R-A-C-I-S-M-O
Nelboy
Racionais MCs
Gospel + FLG
DSDR
O universo feminino visto pelo ângulo da periferia...
O Movimento Black Gospel e o Movimento Negro Evangélico
Entrevista com o DJ Alpiste
Carta Aberta aos Deputados Federais
Guerreiro Guerreira (Hélião e Negra Li)
“Rap bossado” de “Vinícius Terra”
O Lado Humano do “Inumanos”...
“A- TAL”
Soul Black Soul
Música Gospel
Robson Nascimento
Thogun
Dadday Kall
DJ Claysoul
DJ Corello
NelBoy Dastha Burtha
Neurótico + Frenético = Vinimax
Urban D
De La Soul
História do Hip Hop
A história da dança hip hop
DJ (Disc Jóquei)
MC (Mestre de Cerimonias ou Controlador de Microfones)
Graffiti
TR abre a boca
Afinal, o quê é Black Music?
Motirô
 
15 anos de Rio Charme
O bairro das escolas de samba tradicionais e do jongo comemora a debutância de sua filha mais nova: a black music...
Marcado pela presença histórica do “Jongo da Serrinha” e posteriormente pelas tradicionais escolas de samba “Portela, Império Serrano e Tradição”, o bairro de Madureira, ao longo de sua existência, sempre demonstrou em sua essência a forte predominância da cultura negra. E uma prova real deste relacionamento amoroso com o povo afro-carioca foi o nascimento de uma de suas filhas mais novas: a “black music”!

11 de maio de 1990. Um grupo de amigos, verdadeiros entusiastas do samba, conhecidos como “Leno, Pedro, Edinho e Xandoca”, se organizam e fundam o bloco carnavalesco “Pagodão de Madureira”, tendo como local de suas manifestações a parte inferior do “Viaduto Negrão de Lima”... Na semana seguinte o grupo é visitado pelo empresário local do entretenimento black (hoje falecido), “Cesar Ataíde”. A história da black music em Madureira começa aqui...

“No final de 1992, eu fui convidado pelo Cesar Atáide, que hoje não está com Deus, e ele queria fazer um projeto onde envolvesse toda a massa do subúrbio. Então, nós começamos a pensar aonde fazer esse trabalho musical. Ele propôs primeiramente na Praça Patriarca. Não conseguimos. Depois, na marquise da Loja Caricia. Não conseguimos. E, com a influência de um amigo dele (político), ele conseguiu a autorização do Viaduto de Madureira, na Praça das Mães, pra realizar o Projeto Charme na Rua... Ele perguntou pra mim qual seria a melhor data pra estrear o baile e eu falei: ‘vamos deixar passar o carnaval – e isso em 1993 – e vamos começar no primeiro sábado de carnaval’! No dia 6 de março, quando estávamos prontos para estrear, o sobrinho dele adoeceu e então transferimos pro dia 12, data oficial do nascimento do Charme na Rua no viaduto”, relembra com orgulho o “DJ Marki New Charm”, que na época, além de ser um dos fundadores do baile, dividia os toca-discos com os djs “Lopy, Michel, Cali e A”. “No início, nós fomos apoiados pelo equipamento do DJ Marlboro, onde nós íamos buscar em Raiz da Serra, conclui emocionado. “Tudo começou de uma brincadeira: nós éramos camelôs em Madureira e montamos Shopping Rua, ou seja, comprávamos os modelos das roupas dos playboys e dávamos nosso jeito vendendo as cópias do artigo original bem abaixo do preço pro povão que não tinha condições de se vestir bem. Com aquele lucro, tinha o nosso laser que era no Vera Cruz (baile do DJ Corello no bairro de Abolição). Mas era a lei da selva: na nossa profissão, quem chega tarde perde o melhor ponto, e como nós chegávamos tarde do baile, a gente ficava prejudicado. Então, o Cesar Negão (que Deus o tenha!) falou pra mim: ‘pô Jones, nós temos que fazer o nosso baile...’! Mas fazer aonde? A Gente é camelô! ‘Que nada, vamos fazer debaixo do Viaduto porque ali ninguém vai reclamar nada’! Foi uma idéia meio maluca; na época eu tinha um trailer, que a minha ex-mulher administrava, e como lá era aberto, a gente resolveu cobrir os custos do baile com a cerveja que fosse vendida nele... E assim, eu, Cesar Negão, Mico e mais uma outra rapaziada fizemos o Chame na Rua, que hoje, Rio Charme completa seus 16 anos de vida atendendo outras gerações mais novas com o melhor da black music, conta “MF Jones”, um dos anfitriões do baile.

Com o falecimento de Cesar, “Celso Ataíde”, num ato de preservação a construção da identidade da cultura black local e em memória ao seu irmão, decide manter o projeto vivo sob as estruturas do viaduto...
O movimento hip-hop carioca estava no auge: por não concordarem com a violência crescente nos bailes funk; encontrarem uma certa similaridade através do extinto ritmo do “new jack swing” – muito divulgado nos bailes charme da época – e não possuírem dinheiro para freqüentar os bailes black todos os fins de semana, optaram por freqüentar o baile do Charme na Rua, que, gradativamente percebeu a sua presença. “O Cesar achou a necessidade de se colocar muito mais hip-hop no baile... Aí, eu procurei conhecer algum dj de hip-hop. E numa festa, no Morro do Alemão, eu conheci o DJ A! Eu falei logo: esse é o cara que eu tenho que levar pro nosso baile! E ele foi o segundo dj do Viaduto de Madureira”!, declara o DJ Marki, que na época era um dos poucos djs de r&b sensíveis à importância do hip-hop carioca. “Pra mim é um prazer muito grande. Há 15 anos atrás, eu era o que abria o baile e hoje, eu sou um dos principais... Aqui é a minha casa, independente de outros bailes que eu já tenha feito. Aqui sempre foi o meu quartel e o tempo de existência do Viaduto, é o Tempo do DJ A como artista! Fazer parte dessa história me orgulha muito”, ressalta “DJ A”, considerado uma das figuras centrais do baile juntamente com os djs “Michel, Lopy e Black Jay”.

Variando positivamente sobre o mesmo tema...

Entendendo a importância do baile do viaduto como um veículo de concentração popular, responsável pela difusão da cultura negra no Estado do Rio de Janeiro, o Governo do Estado, decide reconhecê-lo, junto a organização remanescente do espaço, como um instrumento essencial à cultura do bairro, assim como as escolas de samba e o jongo: deste modo, em 1995, o “Projeto Charme na Rua” é rebatizado de “Projeto Rio Charme”, e tem suas dependências reformadas visando o controle e a segurança do público, apresentando inclusive um preço simbólico para sua preservação...

O berço da boemia declara o seu amor pela temporã do bairro do jongo e do samba...

Aos 15 anos de vida, o “Projeto Rio Charme”, dá seu primeiro passo para maturidade, e como mesmo citou Jones, “Tudo começou de uma brincadeira (...)”. “É como se fosse uma adolescente que tá se descobrindo pro mundo: imagina uma menina completando seus 15 anos... Ela percebe o seu potencial e sai de uma fase para outra. É por esta razão que nós resolvemos, não apenas comemorar com um baile, mas premiar àqueles que fazem parte do dia a dia dele”, descreve o promoter “Marcos Vinícius” a respeito de uma premiação que será realizada para simbolizar a importância de alguns nomes responsáveis pela biodiversidade cultural do baile: o “Prêmio Haley”, baseado na figura antológica do “Sr. Haley”, um de seus freqüentadores mais antigos e assíduos. “Geralmente, os prêmios que são entregues por aí à fora, seus títulos são baseados em grandes personalidades da história. Na história do viaduto, nós temos um senhor, amante da black music, que chama-se Haley. Ao contrário do que se pensa, ele é um homem de pele branca, residente da Ilha do Governador, de 50 anos de idade, que chega no baile às 22 horas e só sai às 05h30 ao término da programação, isso fielmente há 15 anos! Através do nome dele nós resolvemos homenagear todas as pessoas que fazem parte da história do baile. Não é o Grammy, que tem a sua atenção voltada unicamente para a música, mas é uma premiação com a visão das pessoas que contribuíram para o engrandecimento da black music em todo o estado e não apenas no viaduto durante esses 15 anos”, explica Marcos.

E são estes os contemplados com o “Prêmio Haley”:

• Jeffinho- dançarino da Cia. de dança de Débora Cocker, freqüentador assíduo e dançarino do baile desde sua inauguração.
• Daddy Kall- cantor black e dj do programa Adrenalina Black (Transamerica FM). Freqüentador do baile desde os tempos do grupo You Can Dance (do qual era integrante).
• Rose- freqüentadora assídua do baile desde o início. Engravidou e mesmo assim não abandonou sua prazerosa rotina dos fins de semana. Hoje, com sua filha atingindo a maioridade, ambas desfrutam do mesmo espaço.
• TR- ex-coordenador da extinta ATCON (Assoc. “Hip-hop” Atitude Consciente). Constumava reunir-se com os membros da entidade nos finais de semana no baile divulgando desta forma toda a cena do hip-hop local.
• Júlio- fã do baile desde o início, resolveu criar a família virtual do Rio Charme, mantendo um orkut na internet.
• DJ Corello- um dos precursores do r&b e popularizador da expressão “charme” nos bailes black cariocas nos anos 80 e 90.
• Fernandinho DJ- ao lado do DJ Corello, se tornou divulgador do charme em todo o estado. Foi inclusive o primeiro dj a levar o rítmo para uma das mais populares rádios AM dos anos 80: a Mundial.
• Grupo DR Intro (ex-Irmãos de Sangue)- grupo de dançarinos que animava a pista do viaduto desde o início.
• Jéssica Sodré- hoje atriz global, nunca deixou de comparecer ao baile durante os fins de semana.

Todavia, ao contrário do que previsivelmente se imaginaria, a festa que caracteriza os 15 de Rio Charme não será realizada nas dependências do Viaduto Negrão de Lima, mas no Circo Voador (Lapa)... Isto mesmo, o Palco Voador se tornará o altar da confraternização dos amantes da black music! Mas porque o Circo e não o local de origem...? “Se você tivesse que fazer a festa de 15 anos da sua filha, você faria em casa? Primeiro, nós fomos convidados pelo Circo Voador. Isso pra nós soou como um prestígio! Nós impomos pra eles nossas regras quanto ao fazer este evento lá. Isto não quer dizer que nós não trabalhamos o nosso espaço e não fazemos os eventos devidos nele... Nosso baile é cotidiano a um evento que segue uma certa rotina todos os sábados. Se fossemos fazer uma festa pra homenagear nosso público, teríamos que presenteá-los com uma festa atípica... Por isso o Circo Voador”!, define Marcos Vinícius muito otimista com a parceria firmada entre os dois espaços.

Portanto, se você ainda não teve a oportunidade de usufruir do espaço considerado a Meca da black music carioca, esta é uma excelente ocasião para entender porque à cada dia um número considerável de gregos, troianos, romanos e africanos lotam o baile black mais badalado do Rio..

Te espero lá!
TR.
Saiba mais:
Quarta - 25 de Maio, 22h
Baile do Viaduto de Madureira
Circo Voador- Rua dos Arcos, S/N - Lapa (21) 2533-0354
Entrega do Prêmio Haley
Ingressos- R$12 (inteiro) e R$6 (estudantes)
www.circovoador.com.br

Projeto Rio Charme- Todos os sábados, à partir das 22h
Viaduto Negrão de Lima (Madureira)
A cargo dos djs “A”, Lopy, Michel e Black Jay